A ida aos Estados Unidos não foi minha última viagem mas, sem dúvida, foi a mais tardia. Não sei bem por que razão, achava que não curtiria os States. Assim, as vezes que tive tempo suficiente (e dinheiro, nem tanto) optei pela Europa, ou passei férias aqui mesmo pelo Brasil.
Mas chegou uma hora em que achei que já era tempo de visitar o Tio Sam. Estava com umas férias vencidas, havia obtido algum dinheiro com a venda de um imóvel e cismei então de realizar um antigo desejo: fazer uma viagem “triangular” Brasil/EUA/Europa.
Não dispunha de certos requisitos, por isso tinha receio de não conseguir o famoso “visto”. Mas resolvi tentar. O máximo que poderia acontecer era obter um “não” como resposta; e daí? Aconselhado pela dona de uma agência de viagens, reuni um bocado de material – fotos de outras viagens minhas, recortes de jornal com fotos e citações do meu nome etc. – e mandei para o consulado americano em Recife. Foi tiro e queda: em menos de uma semana, recebi um visto válido por 10 anos!
Comecei, imediatamente, a montar o roteiro que eu havia planejado: primeiro Miami, saindo (e voltando) num rápido cruzeiro marítimo; depois, uma semana em New York e, de lá, uma esticada a Paris, de onde sairia para um giro de trem pela Suíça, Áustria e Alemanha, voltando à França e, via Estados Unidos, ao Brasil.
O vôo para Miami foi por São Paulo, o que significou umas oito horas de acréscimo ao que poderiam ter sido sete horas de vôo sem escalas Fortaleza-Miami. Em São Paulo o vôo da Varig deveria ter feito conexão com um da United Airlines, mas, devido a um problema qualquer, eu e outros passageiros apenas cumprimos o castigo de andar por todo o aeroporto de Cumbica – do terminal da Varig até o da United, ida e volta – para, depois, continuarmos a voar pela Varig, só que em outro equipamento (um Boeing 747, no lugar do 767). Após um vôo tranqüilo, pousamos em Miami no sábado pela manhã, bem antes das nove horas.
Depois de encarar essa maratona aérea de mais de 15 horas, foi com alívio que peguei um taxi e mandei tocar para o hotel, imaginando que iria poder tomar um belo banho e descansar um pouco antes de sair para o almoço. Pura imaginação. A reserva só valia a partir das 14 horas, e precisei de muita conversa – e mais 20 dólares por fora – para obter o direito de ocupar o apartamento antes da hora.
Embora sendo, evidentemente, uma construção da década de 30, o prédio do hotel não é um exemplar característico (ou digno de nota) do estilo
Art Deco; e estava, visivelmente, em absoluta decadência, externa e internamente. E, apesar de situado numa das esquinas da Collins Avenue (e não muito longe da Ocean Drive), sua localização não era das melhores: bares, restaurantes, lojas, quase tudo nas suas vizinhanças era de segunda categoria; o nível só começava a subir depois de alguns quarteirões de distância. (Até o indefectível hóspede milionário era de 2ª classe: uma caricatura hollywoodiana de um hispânico bem sucedido, de terno com colete e charuto na boca, e andando numa quilométrica limusine branca com chofer.) E só contando com os préstimos (e a boa vontade) da telefonista dominicana é que pude conseguir uma agência de turismo para fazer um city-tour.
A perua (
van, para os
experts) me apanhou no hotel domingo cedo e fomos fazer o básico: passamos pelo Hotel Fontainebleau (sobre o qual certa vez lera um artigo na revista Seleções), Seaquarium, Hollywood Café, Coconut Grove, e outros points considerados imperdíveis. O que mais me impressionou, porém, foi o fato de ter visto, lá, os únicos moradores de rua dessa minha viagem (soube que também em New York existem alguns, mas não os vi). O tour terminou com um passeio de barco pelo porto e ilhas adjacentes, conhecendo (por fora) as mansões de artistas e milionários – incluindo as do Sílvio Santos, Emerson Fittipaldi e Xuxa.
Miami, na verdade, não existe. É um ajuntamento de pequenas cidades (ou condados) formado para faturar em cima do turismo. E faz isso muito bem, oferecendo sol, praia, diversões variadas, mordomias e extravagâncias mil, templos de consumo e, principalmente, “clima”. Por tudo isso (ou apesar disso), Miami se revelou, para mim, bem melhor do que eu esperava.
À noite fui até uma espécie de shopping a céu aberto, o Lincoln Drive, um calçadão com lojas, butiques, livrarias, antiquários, cafés, restaurantes, bares (tudo muito caro, embora, em geral,
chic e bastante charmoso). Mas, o que marcou essa noite para valer foi um súbito aguaceiro que fez Miami ficar parecendo uma cidade tipicamente brasileira: absurdamente inundada debaixo de carradas de chuva.
Na manhã seguinte, céu claro, fui para o porto, a fim de embarcar no Ecstasy para o cruzeiro de quatro noites. Cometi, então, uma burrice e tanto. Impaciente para subir a bordo, não esperei por um carregador e levei a bagagem, eu mesmo, para dentro do terminal. Isto chamou a atenção dos funcionários da alfândega, que me pararam, abriram e fuçaram todas as malas. Bobeei, dancei.
Nosso destino era Cozumel (podendo visitar Cancún ou Tulum), no México, passando por Key West, uma ilha do litoral da Florida. O Ecstasy é um belo navio, que até hoje se destaca pelo tamanho e pela chaminé diferenciada e característica. Com 70.000 ton., 260 metros e capacidade para 2.634 passageiros, o Ecstasy é o maior navio no qual já viajei. Luxuoso, pelos padrões americanos, e espalhafatoso, por quaisquer outros padrões, é realmente confortável e espaçoso, oferecendo boas acomodações, piscinas, inúmeros bares, alimentação abundante e variada em seus diversos restaurantes, locais para diversão e repouso, e ótima programação social. Enfim, merece ser chamado de
Fun Ship, como são anunciados os navios da Carnival Cruises.
A escala na ilha de Key West durou metade de um dia. A maioria dos passageiros foi visitar a cidadezinha, um balneário de classe média com alguns ex-moradores famosos – entre outros, Ernest Hemingway. Mas alguns passageiros, eu inclusive, preferiram pegar uma lancha e navegar cerca de uma hora para ver, através de uma lâmina de vidro no fundo do barco, o único banco de coral “made in USA”. Não achei grande coisa, não.
Partindo de Key West, atravessamos o Golfo do México rumo a Cozumel. Antes de atracar, o navio fez uma parada ao largo, para desembarcar quem ia visitar as ruínas da cidade maia de Tulum, na península de Yucatán. Fui junto.
Pegamos um ônibus minimamente confortável e viajamos cerca de uma hora até o sítio arqueológico. Lá, há um estacionamento que fica a uns 700 metros das ruínas e é apoiado por uma pequena infra-estrutura: bar, lanchonete, sanitários, lojinhas. Há ainda um trenzinho puxado por trator que, por uns poucos pesos, leva a gente até as ruínas propriamente ditas. Ainda bem. Porque andar 700 metros a pé com aquele calor e debaixo daquele sol, tenha dó!
Tulum, do último período maia, se diferencia por ser a única cidade daquele povo construída à beira mar. Suas ruínas, menos elaboradas que as de outros locais mais visitados e famosos, ainda assim impressionam pela sua imponência e grandiosidade e, principalmente, nos fazem lamentar o fim injustamente precoce daquela brilhante civilização.
Cansados das andanças, e suados até a alma, voltamos ao ônibus e tivemos a grata surpresa de encontrar geladíssimas garrafas de cerveja à nossa espera. Raras vezes um refrigério desses foi tão bem vindo e devidamente apreciado. De volta a Cozumel, não deu tempo para mais nada: fomos direto ao porto e embarcamos novamente no Ecstasy.
O dia seguinte foi de navegação, com muito sol, muita piscina, muita bebida e a Ilha de Cuba lá longe, na linha do horizonte. À noite, o baile de despedida pedia que as mulheres comparecessem de longo e os homens de paletó e gravata. Claro que não faltou quem se produzisse da cabeça aos pés, com direito a plumas, paetês, jóias e smokings de lamê. Mas também houve uma jovem que apareceu de longo (como sugerido, embora quase uma camisola), e... de chinela tipo havaiana. Juro!
Desembarcamos em Miami na sexta de manhã e, desta vez, fui alojado em um hotel muitíssimo superior ao anterior: mais moderno, mais confortável, com melhores serviços e muito, muito mais bem localizado: de frente para o mar, numa zona badalada e próximo a dois shoppings centers. Pena que no sábado, às cinco da manhã, eu tinha de pegar o avião para New York.
Assim fiz. E o único acontecimento da viagem digno de nota foi o “show” de grosserias de um casal, principalmente a mulher, que não se conformava por não ter obtido os assentos desejados. Com isso, o tempo passou rapidamente e, lá pelas dez da manhã, eu já estava chegando ao hotel, na Sétima Avenida, próximo ao Central Park. Aí, aconteceu um replay da minha chegada em Miami: a reserva só era válida a partir das 14 horas. Mas, desta vez, não houve conversa nem dólares que me fizessem subir antes para o apartamento. Tive de deixar as malas no depósito do hotel e, durante cerca de quatro horas, tornei-me um sem teto em New York! O jeito foi dar uma volta de charrete pelo Central Park (35 dólares, um roubo!) e depois ficar rodando num desses ônibus turísticos que fazem percursos fixos, e você embarca, desembarca e torna a embarcar onde quiser, quantas vezes quiser, num mesmo dia e pelo preço de uma única passagem.
Enfim, chegaram as duas da tarde e eu corri para usar a minha reserva. Apesar de estar em reforma, o Park Central (esse é o nome) é um bom hotel, com instalações espaçosas e confortáveis, embora sem grandes luxos, e atendimento e serviços tipicamente americanos: pagou, recebe.
Como é muito freqüentado por brasileiros, tem um balcão no hall da recepção, instalado por algumas empresas de turismo, onde se fala português. Não deixa de ser um valioso auxílio e bem à mão.
Para quem, como eu, morou anos e anos no monstro urbano chamado São Paulo, New York não deixa de ser estranhamente pequena. É que lá quase tudo se concentra na Ilha de Manhattan que, por absoluta falta de espaço, só cresce para cima (daí a existência de prédios como o Empire State Building, que por mais de três décadas foi o maior do mundo e, desde a destruição das torres gêmeas, é novamente o mais alto de New York). O resto da cidade se espalha pelos condados em torno da ilha e, via de regra, é um tanto ignorado pelos turistas.
Eu mesmo, confesso, só saí de Manhattan para ir embora da cidade. Lá, na ilha, estava tudo o que me interessava – do Times Square ao Metropolitan Musem, do Harlem às grandes lojas de departamento (Macy’s, por exemplo), e os prédios e endereços mais conhecidos do mundo.
By the way, por maior que sejam o charme e os merecimentos de Paris, Roma, Londres, Moscou e quetais, ninguém pode negar que New York é, de fato, a capital do Planeta. E, desde o século XIX e durante todo o século XX, foi o ímã que atraiu todos os grandes transatlânticos, tanto os malfadados Titanic, Normandie e Andrea Doria, como os inesquecíveis Queen Mary e Queen Elizabeth, e os soberbos France e United States – apenas para citar alguns.
Lamentavelmente, quando estive em New York o chamado
luxury liners row já não era mais que uma lembrança à beira do Hudson, embora sobreviva fisicamente. Foi lá que peguei um barco para fazer o contorno da ilha, tendo cruzado com dois retardatários: o Meridian (hoje no fundo do mar), e o Ocean Breeze, um teimoso sobrevivente dos anos sessenta.
Sou uma daquelas pessoas que podem abrir a boca e dizer que esteve no alto das torres gêmeas. De cima de seus mais de 400 metros tive a impressionante visão de uma New York que se espalha muito além de Manhattan e alcança até o estado vizinho de New Jersey. Assim como também é impressionante ver aquele paliteiro gigante dominado, na outra extremidade, pelos soberbos e inconfundíveis perfis do Empire State Building e do Chrysler Building.
Mas, além da arquitetura, New York oferece um mundo de cultura em seus teatros, museus, galerias, exposições e eventos diversos. O Metropolitan, por exemplo, não só é um dos três maiores museus do mundo como reúne coleções as mais completas e diversificadas, abrangendo temas e assuntos os mais relevantes. Nele, dentre outras coisas, vi: a reconstrução do pórtico monumental de um palácio assírio; um pequeno templo egípcio, salvo inteiro das águas e transportado, pedra por pedra, para este lado do mundo; impressionantes coleções de pinturas e esculturas dos maiores e mais famosos artistas europeus dos últimos séculos; os mais diferentes e valiosos objetos das mais variadas origens. Para falar a verdade, passei um dia todo lá, mas sei que vi apenas uma pequena parte do seu acervo.
Devo ter andado quilômetros dentro do Metropolitan; e, por causa disso, meu nervo ciático se ressentiu e me obrigou a ficar de molho no hotel durante toda a manhã seguinte, tomando anti-inflamatório. Aproveitei para assistir televisão e ver os comerciais da “matriz” (sou publicitário, certo?). Mas acabei vendo uma coisa melhor ainda. Coincidiu de ser justamente o dia do leilão dos vestidos da Lady Di e, por acaso, sintonizei uma emissora que iria transmitir o acontecimento ao vivo. Antes, porém, estava mostrando a chegada das (possíveis) compradoras e fazendo
flashes de entrevistas com pessoas conhecidas na cidade. Entre estas, uma Drag Queen, que soltou o verbo e disse a mais completa das verdades. Algo assim:
“
Essas bruacas (fusão com cena de gente chegando ao leilão; fala continua em off)
acham que, se pagarem milhões por um vestido da Lady Di (panorâmica dos vestidos em exposição),
vão ficar igualzinhas a ela quando usá-lo” (corta para duas matronas gorduchas e enjoiadas descendo de uma limusine). Volta para imagem da Drag Queen que solta gargalhada debochada. Encerra.
Sincerely, se algo me decepcionou nos Estados Unidos, foi justamente a propaganda. Tudo o que eu vi na TV foram comerciais e mais comerciais de varejo, inclusive de automóveis, vendendo preço, preço, preço – não lembro de absolutamente nada que fosse sequer longinqüamente criativo. Por favor, alguém me diga: onde é que se escondem aqueles anúncios antológicos que costumam encantar as platéias e os júris dos festivais de publicidade?
Na tarde desse mesmo dia, já me movimentando melhor, fui cumprir a sagrada obrigação de visitar o Empire State, na 5th Ave. Está certo: as torres gêmeas eram mais altas, mais visíveis, mais modernas, seus elevadores eram muito mais rápidos. Mas, realmente, não tinham o charme nem a áurea (ou a mística) do Empire State! Com 381 metros, ele é “apenas” dez vezes mais alto que a estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, e um pouco menos que isso em relação à estátua da Liberdade, logo ali perto. Ao seu redor, erguem-se quase todos os arranha-céus que caracterizam a ilha de Manhattan, e ele os domina. Seus elevadores (hoje em dia) lentos e barulhentos são forrados de madeira; e sua arquitetura e corredores nos fazem dar um salto de volta (não para o futuro, mas) para o passado. Terminada a visita, desci e, ao invés de ir embora, entrei num bar que existe no térreo, pedi um uísque e fiquei ali, curtindo o fato de estar no edifício mais famoso do mundo.
No dia seguinte, fui visitar St. John The Divine, igreja cuja construção começou no Século XIX e que, embora não inteiramente concluída, é a maior do mundo em estilo gótico. Imponente, bonita e bastante fiel ao estilo arquitetônico adotado, não é só por isso que ela se diferencia. Apesar de ser da Igreja Episcopal (ou Anglicana), é também um templo ecumênico, com altares destinados a cada uma das religiões monoteístas. Nunca havia sequer ouvido falar em algo assim.
Minha estada em New York teve, é claro, o seu quinhão de compras e de idas a restaurantes; mas não vou detalhar isso. Só acrescentarei que, como não poderia deixar de ser, fui assistir a um musical (Cats) na Broadway, ouvi a bela cantoria gospel dos crentes numa igreja do Harlem, e estive no Village e na Little Italy. Mas não quis saber da Rua 46 (a dos brasileiros), nem dos shoppings da vida. Comprei meu Star Tac, sim, mas numa loja da 5th Avenue.
Para ter certeza de que meu adeus a New York seria inesquecível, a agência de viagens (novamente ela), primeiro, convenceu-me de que sairia muito mais em conta voar para Paris partindo de Washington, ao invés de New York. Depois, sem me avisar (isto é importante), colocou-me num
shuttle New York-Washington a fim de alcançar o vôo para Paris. O tal
shuttle, da United Express, teve duas características singulares: primeiro, os próprios passageiros tiveram que levar suas malas até o avião, onde uma figura as acomodava no, digamos assim, porta-malas; segundo, o aviãozinho era tipo Bandeirante, mas tão apertado que eu, que nem sou tão alto, passei hora e meia de pescoço inclinado sentado junto à janela, pois não havia espaço para que levantasse a cabeça. E, requinte adicional: o “serviço de bordo” limitou-se a latas de cerveja, vendidas a $ 2.50 cada.
Mas, se Paris vale uma missa, por que não um pescoço duro?
Costumo fazer vista grossa e relevar incidentes como os que me foram proporcionados pela (escolha a definição: indiferente? ignorante? descuidada? incompetente?) agência de viagens cearense. Quem viaja está sempre sujeito a imprevistos; mas, neste caso, é preciso registrar os acontecimentos que não só complicaram a minha viagem como, desnecessariamente, me causaram aborrecimentos, desconforto e gastos extras. Portanto, apesar do saldo positivo da viagem, faço a pergunta que não quer calar: o pessoal que cuidou do meu roteiro, em Fortaleza, não sabia desses detalhes (sobre a validade das reservas de hotel em relação aos horários de chegada dos vôos, e sobre os demais inconvenientes que se apresentaram depois)? Apertem os cintos, que lá vamos nós!